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Brasil, Sexta-Feira, 30 de Julho de 2010
 

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   Em 2008 completam-se 100 anos da imigração japonesa. Durante quase um século a colônia nipônica conquistou vitórias e histórias de sucesso.
   Depois de superar inúmeros desafios nos mais variados ramos de atividade, o idioma e a diferença radical na cultura, não a impediram de se tornar uma das mais respeitadas comunidades do país.
   Hoje ela junta forças às empresas multinacionais japonesas instaladas no Brasil, trazendo desenvolvimento e força econômica à nação que tão bem a acolheu. Esse poder de superação e sacrifício, tornou os nipo-brasileiros dignos de muito respeito e credibilidade.
   Passados todos esses anos, a colônia tornou-se populosa, aproximadamente 1.500.000 ( um milhão e quinhentos mil ) descendentes, como também se dispersou pelo Brasil inteiro, de norte a sul e de leste a oeste. 

 

Índice

O começo

O primeiro navio a aportar no Brasil com imigrantes japoneses foi o Kasato Maru, em 18 de Junho de 1908, no Porto de Santos. Trazia 165 famílias, que vinham trabalhar nos cafezais do oeste paulista.

Nos primeiros sete anos, vieram mais 3434 famílias(14 983 pessoas). Com o começo da I Guerra Mundial (1914), explodiu a imigração: entre 1917 e 1940, vieram 164 mil japoneses para o Brasil. 75% iam para São Paulo, visto que colônias e bairros japoneses eram comuns lá.

Cerca de 85% dos imigrantes japoneses tinham a pretensão de enriquecer no Brasil e retonar para o Japão. Todavia, o enriquecimento rápido em terras brasileiras era um sonho quase impossível de se alcançar. Os japoneses, em sua maioria, foram trabalhar nas plantações de café no interior de São Paulo e posteriormente no norte do Paraná. Outros foram trabalhar na exploração de borracha na Amazônia, ou nas plantações de pimenta no Pará, que eles próprios trouxeram, mas o grande destaque da imigração japonesa fica mesmo na cafeicultura. A maior parte dos japoneses eram camponeses pobres, oriundos das províncias do Sul e do Norte do Japão.

Os problemas na imigração japonesa

O imigrante japonês era visto com desconfiança por parte do governo brasileiro. O governo tinha preferência por imigrantes europeus e era evidente o preconceito contra os imigrantes de origem asiática. No final do século 19, grupos de imigrantes chineses foram impedidos de entrar no Brasil para dar preferência aos imigrantes italianos. Os primeiros grupos de japoneses encontraram no Brasil cultura, hábitos alimentares, religião, roupas, clima e paisagens completamente diferentes daquelas do Japão.

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Uma moça brasileira de ascendência japonesa durante uma celebração xistoísta em Curitiba

A adaptação foi bastante sofrida e a grande maioria dos imigrantes tentaram de todas as maneiras retornar para o Japão, e foram impedidos pelo governo e fazendeiros, que lhes obrigava a cumprir o contrato e trabalhar nas fazendas de café. Assim, muitos japoneses fugiam das fazendas, faziam rebeliões contra os fazendeiros e se negavam a trabalhar.

Os problemas na imigração fizeram o governo brasileiro cancelar a imigração de japoneses. Porém, com a eclosão da I Guerra Mundial, os japoneses foram proibidos de imigrar para os Estados Unidos, eram mal-tratados na Austrália e no Canadá. O Brasil tornou-se um dos poucos países no mundo a aceitar imigrantes do Japão.

A grande imigração nipônica

Com o fim da Primeira Guerra Mundial, o fluxo de imigrantes japoneses para o Brasil cresceu enormemente. O governo japonês passou a incentivar a ida de japoneses para o Brasil, por diversos motivos: o campo e cidades japoneses estavam superlotados, causando pobreza e desemprego e o governo queria a expansão da etnia japonesa para outros lugares do mundo e também que a cultura japonesa fosse enraizada nas Américas, a começar pelo Brasil.

A maior parte dos imigrantes chegaram no decênio 1920-1930. Já não iam apenas trabalhar nas plantações de café, mas também desenvolveram o cultivo de morango, chá e arroz no Brasil.

Os imigrantes durante a Segunda Guerra Mundial

Na década de 1930, o Brasil já abrigava a maior população de japoneses fora do Japão. Com o início da Segunda Guerra Mundial, a imigração de japoneses cessou por completo e só voltou a crescer com o seu término. Porém, o Brasil havia declarado guerra contra o Japão, e a imigração foi proibida. Os imigrantes já estabelecidos no Brasil passaram a ser perseguidos pelo governo brasileiro, o presidente Getúlio Vargas proibiu o uso da língua japonesa em território brasileiro e qualquer manifestação que simbolizasse a cultura japonesa era crime. Muitos imigrantes que viviam no litoral de São Paulo foram obrigados e se mudar para o interior do Estado, pois o governo do Brasil temia que o Japão pudesse atacar o país sendo ajudado pelos japoneses que estavam no litoral. O maior problema durante a Segunda Guerra foi o movimento conhecido como Shindo Renmei.

Shindo Renmei

Durante a Segunda Guerra Mundial, alguns japoneses radicais protestavam contra a posição brasileira na guerra e criavam panfletos pedindo a destruição do cultivo de seda (usada para pára-quedas, por exemplo) e hortelã (o mentol poderia aumentar a potência da nitroglicerina, era usado para resfriar motores e podia ser tóxico).

A maioria dos 200 mil imigrantes não aceitaram a derrota em 1945, e assim a colônia se dividiu em "derrotistas" (makegumi), menos de 20% da população, e os "vitoristas" (kachigumi).

O coronel aposentado Junji Kikawa fundou pouco após o final da guerra a organização secreta Shindo Renmei ("liga do caminho dos súditos", em japonês), para impedir as "notícias falsas da derrota" de se espalharem e para se matar os "derrotistas", também apelidados "Corações Sujos" (que batizou um livro sobre a organização escrito por Fernando Morais e lançado em 2000).

Essa organização pretendia propagar no Brasil a idéia de que o Japão não tinha perdido a Guerra, e sim que era uma invenção dos Estados Unidos para enfraquecer o Japão. Os imigrantes japoneses eram fiéis ao Imperador do Japão, Hirohito, e grande parte tornou-se membro da organização.

Quando o Brasil declarou guerra ao Japão, os japoneses passaram a ser perseguidos pelo governo brasileiro, e assim como aconteceu com a comunidade alemã e italiana do Brasil, a língua japonesa foi proibida de ser falada no País. Escolas japonesas foram fechadas e manifestações culturais nipônicas proibidas em território brasileiro.

O Shindo Renmei perseguiu os japoneses que acram que o Japão realmente tinha perdido a guerra, entre katigumis e makegumis foram mortos oficialmente 23 pessoas entre 1946 e 1947. A organização perdeu força a partir do final de 1947, quando o governo do General Dutra, após interrogar 30 mil pessoas, prendeu mais de 300 suspeitos e condenou a expulsão do território nacional 155 japoneses, fato este que nunca foi colocado em prática.

O abrasileiramento dos japoneses

 

Os imigrantes japoneses e seus filhos nascidos no Brasil permaneceram fechados dentro da comunidade durante algumas décadas. No campo e até mesmo na cidade de São Paulo, eles se agruparam em bairros como a Liberdade, onde formavam colônias que recriavam o ambiente que deixaram no Japão. Porém, essa situação de isolamento começou a se modificar a partir da terceira geração nascida no Brasil. Esse fenômeno nasceu entre os netos de japoneses que não mais se sentiam japoneses, pois eram criados dentro da cultura do Brasil e desejavam pertencer definitivamente ao Brasil. Atualmente, apenas 10% dos brasileiros filhos e netos de japoneses sabem falar a língua japonesa. O casamento fora da colônia japonesa também tornou-se um fenômeno comum a partir da década de 1970. Atualmente, cerca de 30% dos nipo-brasileiros são frutos de um relacionamento entre um japonês e um não-japonês.

Miscigenação

 

Uma das caracterísicas da sociedade brasileira é a miscigenação mas, no caso dos nipo-brasileiros, essa miscigenação levou um tempo maior para acontecer. O casamento de japoneses fora da colônia japonesa não era aceito pela maioria dos imigrantes, pois a maioria pretendia voltar para o Japão, portanto, se casassem com um não-japonês, teria que permanecer no Brasil. Porém, o lado étnico-cultural foi o que mais dificultou, inicialmente, a miscigenação. Os japoneses possuem uma cultura fechada e, mesmo hoje em dia, o casamento com um não-japonês é mal-visto por grande parte da população.

No caso dos imigrantes japoneses no Brasil, essa situação de isolamento étnico acabou por se deteriorar a partir da década de 1970. Os imigrantes de primeira geração raramente se casavam com um não-japonês, porém, a partir da segunda e terceira geração, o fenômeno da miscigenação passou a fazer parte da realidade da colônia japonesa no Brasil.

É notável que, no Brasil, muitos japoneses passaram a se casar com descendentes de outros grupos de imigrantes, como italianos, portugueses e espanhóis, além de com brasileiros de origem miscigenada de africanos e indígenas. No início, muitos filhos mestiços de japoneses com não-japoneses passaram a sofrer preconceito dentro da colônia japonesa porém, atualmente, os casos de preconceito racial contra mestiços é pouco significativa.

Atualmente, a colônia japonesa do Brasil está dividida em: isseis (japoneses de primeira geração, nascidos no Japão) 12,51%, nisseis (filhos de japoneses) 30,85%, sanseis (netos de japoneses) 41,33% - dentre os quais 42% são mestiços -, yonseis (bisnetos de japoneses) constituem 12,95%, dos quais 61% são mestiços.1

 

O fenômeno Dekassegui

Hoje em dia vivem no Japão cerca de 270 mil brasileiros, a maioria dos quais são dekasseguis (brasileiros de ascendência japonesa). A comunidade brasileira no Japão é a terceira maior fora do Brasil e, por sua vez, é a terceira maior comunidade imigrante no Japão, atrás apenas dos coreanos e chineses.

Inversão do fluxo migratório de brasileiros descendentes ou cônjuges de japoneses ao Japão à procura de melhores oportunidades de renda, iniciados na segunda metade da década de 80 do Século XX. Nessa época, com a necessidade de atrair mão-de-obra para a rápida expansão econômica japonesa levou o governo daquele país a criar leis para facilitar a entrada de trabalhadores. Em 1990 foi editado a Lei de Controle de Imigração, permitindo que japoneses e seus cônjuges ou descendentes até a 3ª geração possam exercer qualquer atividade legalmente por um período relativamente longo. Por outro lado a crise no lado brasileiro (alta inflação, crescente dívida externa e instabilidade política) levou a população (principalmente os mais jovens) a procurar melhores alternativas de vida em outros lugares (Europa, Estados Unidos, Canadá, Austrália e, no caso dos descendentes de japoneses, o Japão).

Bibliografia

LESSER, Jeffrey. Negociando a Identidade Nacional: Imigrantes, Minorias e a Luta pela Etnicidade no Brasil. São Paulo: Editora UNESP, 2001.

 

 

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